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Mona da Boca


2018

instalação e vendas

Mona da Boca. um trabalho, um texto, São Paulo - Brasil. Fotografia de um trabalho, um texto.

trabalho realizado durante Residência Artística FAAP (São Paulo, BR).
agradecimentos a Miwi.




http://umtrabalhoumtexto.tumblr.com/

texto / text:


São Paulo, 5 de setembro de 2018.
Unhas esmalte acetona farmácia.
Ela.

São Paulo, 7 de setembro de 2018.
Talvez em alguns anos eu consiga elaborar o que é ter um pai machista, homofóbico e agressivo à beira da morte, enquanto um candidato à presidência da república, igualmente machista, homofóbico e agressivo, é esfaqueado.

São Paulo, 22 de setembro de 2018.
Faz 11 dias que meu pai morreu.
Cabelos água oxigenada pó descolorante óleo de coco farmácia ateliê saquê.
Ele me bebeu.

São Paulo, 26 de setembro de 2018.
Faz 15 dias que meu pai morreu.
Brotar no vazio, riscar a unha no chão, todo texto é contrabando. 
Não podemos construir o que não podemos imaginar, imaginar um trabalho elaborar um trabalho recordar repetir elaborar imaginar formas de se atravessar um luto, toda teoria é contrabando.
Construir um posicionamento ou uma identidade, a passabilidade de uma obra de arte, a passabilidade de uma travesti, é ou não é? Abertura de olhos bocas mentes e portas às vezes também o estilhaçamento de algumas janelas corpos vidros taças de éter acetona hematoma hormônio luz bala loló, todo discurso é contrabando.

Preciso terminar de ler o livro da Silvia Federici.

Reli as palavras de Judy Chicago, Paul Preciado, Lucy Lippard, Jota Mombaça e Mira Schor. Mira fura as páginas com bês: Baudelaire, Benjamin, Brecht, Beckett, Barthes e Baudrillard. Os seis bês. Mira fala sobre como a legitimação de uma obra de arte é estabelecida através de um pai, de grandes-pais e de alguns progenitores frequentes como os seis bês. Mira fala sobre a patrilinhagem, dá nome aos bois.

Pra falar da Mona da Boca eu preciso falar do Beuys? Não, pra falar da Mona da Boca eu preciso falar da Boca. E da Mona. E de suas mucosas resistentes a forças abrasivas.

Mona da Boca, é pra entrar ou não é?

Na boca, fogo, fala quem passa pela porta da garagem entreaberta.
Abaixa, fogo, fala a luz roxa que pinta a parede da garagem, acolhendo quem antes era passante.
O que se vê é fogo.
O que se inala é fogo.

São Paulo, 30 de setembro de 2018.
Estamos queimando há 28 dias. Atiramos, amamos e gritamos com fogo.
Evocamos: o fogo nasce de uma faísca que sai de uma unha afiada que rasga o chão.
E você encharcou o tecido, o levou à face, inalou com a boca e pulou.
É ou não é?

Santarosa Barreto