Três Travestis (Manifesto) 




Preciso dizer. Grito de uma garganta dilacerada. Arranhada. Fincada. E aberta. Por unhas afiadas como línguas. Dedo a dedo 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10. Bico de pato. Fio terra. Penetra, corta e fura. Olho por olho. Dente por dente. Cortar, separar, apartar o que está fora e principalmente dentro dos seres. Esgarça veias viciadas na toxina ancestral do ocó, que caça e domina a cabeça, o afeto e o sexo. A transição é coletiva. Vejo quartos, calçadas, esquinas sem paredes. Vaza hormônio na rua. Desatando nós, nódulos e coágulos históricos; travesti é fronte, monumento militante da resiliência, desobediência e dissidência.. Grito VIDA ETERNA TRAVESTI! Isso nos separa. Deles. Somos o centro, pela goela direcionamos o Cistema à Desbinarização de sua estrutura nervosa e de sua cegueira branca. Dignidade e Visibilidade. Essa é nossa travalíngua. Verbo de empatia entre nós. Profecia de vida. Disfarçar a dor em palavra de sonho. Despistar o patriarcado no requebrar do quadril virar a esquina. Afiamos os pés e riscamos o nosso ponto. Mona, olhe. Garganta profunda está para fora. Todas passam. Todas ficam. Todas vivas. Irmã, me diz. Essa é nossa vingança.

É necessário entender que o cuidado deve ser ósseo. As mesmas propriedades de qualquer estrutura ou lugar, sendo assim a perfeita materialização do que se é. É necessário cuidar. Ossos. Ossos-cabelo. Ossos-unhas. Ossos-pele (casca grossa). Que debatam sobre a coluna vertebral enquanto são as centenas de ossos dos pés que sustentam o aterramento diário. É necessário entender que todo o terror contém ossos (talvez nossos ossos-corpos, mas não teus ossos). A questão não é sobre tornar-se dura. Há necessidade de cuidar dos poros. Como manter a porosidade sem excesso de penetrabilidade? É necessário o convite, um autocomando, sinais de urgência, o uso de todas as luzes. Há de emitir sua própria luz. Os vagalumes não chegaram a tempo da construção das cidades, portanto, é necessário gerar a própria luz. Cria-se (o que) acostuma-se.

A revolução virá pelas mãos daquelas que têm garras. Aquelas cuja rua é a sina, quando não morada. Aquelas que rasgam as linhas que cruzam a malha da cidade, as que abrem caminhos e fissuras, aquelas que escrevem coisas novas que já foram ditas há muito e por muitas. Nós, três travestis que tiveram a audácia de negar aquilo que a medicina ocidental nos apresentou enquanto destino para aprisionar nossos corpos. Seremos nós a fazer com nossas mãos a revolução que começou no nosso corpo. Seremos nós e viremos de todos os lugares, de todas as culturas. Seguiremos unidas a este ímpeto de fogo e sangue, que nos incinera e reconstrói. Escutando tantas que vieram antes, que fizeram da rua sua casa e local de trabalho. Viremos pelas mesmas ruas com toda essa tradição embebida em nossas veias. Por mim, por nós e por todas.


Agrippina R. Manhattan, Ana Matheus Abbade e Yná Rodríguez. 

Ensaio publicado em 30/12/2018 na plataforma Fora (link de acesso: http://bit.ly/unhasrasgaraocidades)


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